Das voltas que o mundo dá
Das tantas voltas que o mundo dá nenhuma me levou a você. Levou-o à quela loirinha do bar ou à quela morena da revistaria que por acidente do destino quis a mesma revista sem graça de culinária que você queria ou até mesmo até aquela hipster do café filosófico que eu te arrastei com o pretexto de te impressionar com a minha “inteligência conceitual do universo paradoxal”. Levou-te a todas as garotas que te largaram na primeira oportunidade, mas nunca a mim, a melhor amiga, a companheira de bebidas, a parceira de séries, a camarada de festa e o ombro para todas as lágrimas.Durante longos meses revoltei-me com esse fato absorvendo cada grito de agonia para que você não me viesse com aquele papo barato de “larga de frescura, você não é mais criança” enquanto pensava em como abordar aquela garota que te encarava do outro lado do salão. Soube que não era criança quando vi que sua vida acabaria daquela forma ao te ver sumir entre as pessoas com uma loira de farmácia banal e abandonar-me em uma mesa com uma caneca de cerveja pela metade e uma conta para pagar, sendo que eu nem bebo. Foi sentada na cadeira amadeirada do bar que sorri e percebi que você havia sido destinado a barzinhos e noites vulgares com corações vazios assim como seu pacote de sonhos. DoÃa ver o cara que cresceu comigo e passou de amigo a amor tornar-se um desses “adultos de boteco” que dedicam a vida ás noites e prazeres temporários apenas para fugir da realidade que o envolve, para afugentar a dor de uma ferida de amor, para maquiar medos e vontades reais, não me coloco acima ou abaixo de você amigo, apenas reconheço que o espaço que habita não tem lugar para uma pessoa como eu, somos realmente muito opostos e creio que nunca quis enxergar isso diante de mim.A questão é que eu te amei, profundamente e irrevogavelmente, caminhei de mãos dadas com você e seu coração ajudando a curar cada ferida com um bandaid ou uma boa dose de cachaça, eu dei meu coração a você apenas para vê-lo sendo colocado no bolso junto com sua cartela de cigarros e o telefone amassado de uma garota que você não ligaria. Posso passar horas falando das noites que passei em claro esperando por uma mensagem ou uma luz, ou das vezes que te carreguei bêbado e deitei ao seu lado apenas observando sua calmaria diante de um mundo tão conturbado. Eu tentei meu amigo, como eu tentei te fazer enxergar que eu estava ali, mas uma hora os esforços cansam e o ciclo infinito de ser deixada de lado pesa nos ombros.Das voltas que o mundo deu nenhuma me despertou tanto quanto aquela. E foi suficiente para que eu descesse da roda e tecesse minha reta. Andei descalça por longos quilômetros até encontrar quem me calçasse, não foi um prÃncipe, nem mesmo um sapo, mas foi suficiente para me fazer olhar para trás e sorrir sem me arrepender de ter abrido mão de um investimento vazio. Não sei quantas voltas o seu mundo ainda vai dar, mas espero que alguma delas abra seus olhos e desperte-te para o melhor que a vida pode te dar: o direito livre e espontâneo de amar.
